Literatura e guerra

Gustaf Cederström: “O funeral de Carlos XII”. 1884.

Originalmente publicado no site Letras In.Verso e Re.verso: https://www.blogletras.com/2022/09/literatura-e-guerra.html

São incríveis as descrições de guerra de Tolstói. Inesquecíveis as cenas de pontes destruídas, de canhões disparando contra a bateria inimiga, de mensageiros voando a cavalo, dos obuses cujos estilhaços derrubaram o príncipe André. Impossíveis de tirar da cabeça a Moscou em chamas e a guerrilha na floresta de taipa. Pedro de olhos vendados, sendo conduzido ao paredão.

Mais inesquecíveis as descrições do massacre brasileiro ocorrido na cidade de Canudos. Assistimos em Os sertões ao canhão de mil e setecentos quilos sendo puxado por uma parelha de cavalos, atravancando no meio do caminho, como um trambolho incômodo. Os militares cansados, com as roupas rasgadas pelos espinhos, comidos pela seca infernal, varados pelas balas vindas de todas as direções. Os canudenses numa luta encaniçada, escondidos como fantasmas em buracos, atirando com armas improvisadas, surpreendendo pelo dinamismo em uma tática de guerrilha desenhada pelo verdadeiro herói brasileiro, o Pajeú. A igreja alvejada pelos canhões, resistindo inabalável, e as mulheres esquálidas (mas de uma força descomunal, a força da natureza) atacando à faca os soldados que invadiam os barracos.

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Sentimento e intuição na lírica

Amado Alonso, irmão de Damaso Alonso. Filólogo, linguista e crítico literário, um dos expoentes da Estilística moderna.

Artigo traduzido do livro:  Materia y forma en poesia (Terceira edición), de Amado Alonso.

O poético na poesia consiste em um modo coerente de sentimento e em um modo valioso de intuição. Nele o sentimento não é apenas vivido (afinal, todos nós vivenciamos sentimentos), como também é ao mesmo tempo contemplado e qualitativamente configurado pelo poeta. Na vida cotidiana, os sentimentos formam ondulações, ondas que vão e vêm e se entrechocam, ainda que sigam conjuntamente na direção do vento. Já no poetizar, o que se alcança é a unidade intencionalmente criada do momento sentimental. A intuição, por sua vez, consiste numa visão penetrante da realidade, na descoberta do sentido das coisas, um sentido mais profundo do que o sentido prático fornecido pelo nosso intelecto.

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Elogio à literatura

Poema Tabacaria, de Álvaro de campos. Revista Presença, n.º 39, julho de 1933.

Trecho traduzido de:  Di tutto resta un poco – Letteratura e cinema, edizioni (Milano, 2013), de Antonio Tabucchi1.

1.

Nunca pensei que um dia eu fosse assumir a tarefa de fazer elogios à literatura. O fato de ter produzido enorme quantidade (que me parece realmente excessiva) torna o meu elogio em um evidente pleonasmo. Mas entre os privilégios concedidos à idade constam sobretudo os pleonasmos. É bom aproveitar. De resto, hoje, como sempre na História, parece-me que a literatura merece um elogio, principalmente uma defesa. No fundo, ela conta com os inimigos de sempre, os mesmos detratores, os mesmos adversários externos e internos, os mesmos sicários. A fenomenologia de seus inimigos dispõe de uma vasta trigonometria. Na ponta do triângulo estão aqueles que, quando se sentem perturbados pela literatura, não se limitam a persegui-la e optam por assassinar diretamente os causadores da perturbação – o que evidentemente resolve o problema pela raiz. Em tal prática foi exemplar o stalinismo. O líder do povo soviético, autor de livros de linguística, entre outros trabalhos, percebeu que a literatura se valia de outra língua e que essa língua não coincidia com a sua. Melhor dizendo, Stalin havia compreendido que o problema não era estritamente um problema de língua, já que Mandelstam e Pasternak usavam também o russo. O que acontecia é que eles não empregavam as mesmas palavras. Em resumo, ele compreendeu perfeitamente a lição de Saussure e tirou dela as consequências que hoje conhecemos.

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É isto um homem?

Rara representação dos muçulmanos, do livro Diario di Gusen, de Aldo Carpi.

Uma das várias linhas de reflexão do É isto um homem? parte de um problema linguístico. Descrever os horrores de Auschwitz implica tensionar a língua, forçá-la em sua capacidade expressiva, afinal, pode-se perguntar, ela seria capaz de expressar a experiência extremada dos Lager? Quando reflete sobre os primeiros meses de prisão, Primo Levi chega a se deparar com a limitação da língua, ao perceber que não existiam palavras para se descrever a realidade desumanizadora do campo: “Pela primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa, a aniquilação de um homem”.

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Os bichos de Miguel Torga

Não consegui encontrar a autoria dessa belíssima foto, que, imagino, ilustra bem o Bichos. Há quem a atribua a Georges Dussaud (considero mais provável essa hipótese), ou a Eduardo Gageiro, ou a Gérard Fourel. Há quem diga ter sido tirada no norte de Portugual, Trás-os-Montes, ou mesmo na Galícia.

Os falantes de português estamos sempre às voltas com os animais. Basta nos lembramos das galinhas dos contos de Clarice Lispector, do gato de Otto Lara Resende, do heroico Burrinho Pedrês de Guimarães Rosa –e, claro, da Baleia de Graciliano Ramos. Há também o conto de Ondjaki, Nós choramos pelo cão tinhoso, graças ao qual se chega ao Nós matamos o Cão Tinhoso! de Luís Bernardo Honwana. Em todas essas obras, imergimos no mundo animal para melhor conhecer o homem, certificando-nos de que a vida é sofrimento. Para nós e para eles.

O mais fascinante livro sobre os animais é o Bichos de Miguel Torga. Fascinante por se dedicar exclusivamente aos bichos e pela maneira com que trata o tema com a maior qualidade literária. O português de Torga talvez seja o mais bem elaborado do século passado, tamanho o domínio da língua.

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A carta sobre os cegos

Pieter Bruegel, “A parábola dos cegos”. 1568.

Um dos principais pontos da Carta sobre os cegos para uso dos que veem, de Denis Diderot, é saber se o homem pode conhecer o mundo. Malgrado o empirismo estivesse em voga naquela época, havia quem negasse a matéria (como a negaram os imaterialistas), ou quem ignorasse a importância dos sentidos na aquisição do conhecimento. A angústia de Diderot provinha do ceticismo de alguns pensadores, como Condillac, para os quais o homem não podia sair de si mesmo, portanto, não teria contato com o mundo: “Seja que nos elevemos […] até aos céus seja que desçamos até aos abismos, não saímos de nós jamais, e somente o nosso pensamento é o que conhecemos”.

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Doutor Jivago

Em Tentativa de autobiografia (ou Ensaio de autobiografia), Boris Pasternak faz um apanhado de sua vida, atendo-se ao essencial, corrigindo o que ele considerava afetação no livro anterior, Salvo conduto. Descreve a primeira infância, as amizades de família, a influência da música, o trabalho do pai (ilustrador e amigo de Tolstói), a amizade com Rilke, as relações com Maiakovski, todo o clima da arte modernista russa, finalizando em 1920 com as considerações sobre Tsvetaeva. O tom caloroso e a evidente admiração deixam entrever a paixão platônica pela poetisa.

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Os cadernos de Malte Laurids Brigge

A Dama e o Unicórnio (La dame à la licorne), séc. XV

O que é o Belo, pergunta-se o Rilke das Elegias de Duíno, senão o Terrível que suportamos e admiramos porque, diferente dos anjos, desdenha nos destruir?

Porção de sagrado acessível aos homens, nem sempre o belo é compreensível e nem todos os homens o acolhem.  Para captá-lo, é preciso aprendizagem. Às vezes, uma longa e difícil aprendizagem.

Pois Os cadernos de Malte Laurids Brigge são exemplo dessa beleza Terrível, um tanto hermética, compostos entre os anos de 1904 e 1910. Profundo e cheio de camadas de sentido, é o tipo de livro sobre o qual nunca dizemos “estou lendo”, mas “estou relendo”, conforme definição de Ítalo Calvino para os clássicos. E por mais que o leiamos, releiamos e tresleiamos, a sensação é de que se trata de uma fonte de enigmas insolúveis.

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Idílico infinito

Claude Lorrain (Apolo protegendo o rebanho de Admeto)

Trecho traduzido do livro: Studio su Giacomo Leopardi, de Francesco De Sanctis.


Aqui realmente se vislumbra a primeira marca de seu gênio. Porque Leopardi, como já o conhecemos, é um personagem idílico. Não é homem de ação, não participa da vida exterior, não é apto a cantá-la e ela não passa de uma paleta das suas cores. Até nos momentos de maior entusiasmo extrai dela apenas o simples material de seu espírito, para o qual unicamente vive. A vida exterior é o meio, não o fim. Apartado dela e da ação, naquele ambiente odioso de Recanati, ainda se desenvolve no poeta a concentração natural do seu espírito em torno de si mesmo.  

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A chave de “O leopardo”

Tomasi di Lampedusa

Tradução da carta de Tomasi di Lampedusa ao amigo Enrico Merlo.


NH.
O barão Enrico Merlo de Tagliavia.
S.M
30 de maio de 1957

Caro Enrico,
Na pasta de couro você encontrará o datiloscrito de O leopardo.
Peço que cuide dele, pois essa é a única cópia de que disponho.
Peço também que o leia com cuidado, pois cada palavra foi medida e muita coisa não foi dita claramente, apenas referida.

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O duelo

Cena de “A última noite de Boris Grushenko”. Woody Allen satiriza os duelos da literatura russa.

Fala-se muito do conflito entre o “homem supérfluo” e o “homem niilista” na obra de Ivan Turguêniev, cujo paradigma é o Pais e filhos.

Pode-se dizer que haja conflito semelhante na novela O duelo, sobretudo se colocarmos o personagem principal, Demétrio (e seus idealismo, passividade e impotência), diante da personagem Maria Nicolavna, representante de um tipo social diferente, mais afeito à ação, ao autodomínio e à liberdade.  

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O homem invisível

Biston Betularia

Não é coincidência que o cenário onde se passa O homem invisível seja o mesmo onde se descreveu o mais famoso caso de melanismo industrial, o caso das traças Biston betularia que tanto debate gera entre os biólogos. Afinal, não há invisibilidade completa no país das indústrias, onde a fuligem cai com a neve; ao mesmo tempo, somente no paradigmático país da Revolução industrial para que a invisibilidade seja uma possibilidade.

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